Nonato Marques, o Poeta da Baixinha
toca a sineta. Há número na casa.
O secretário lê todo o expediente
e a águia do verbo sobre nós abre a asa. Depois há sururu...o verbo abrasa.
Há sempre, cada dia, um bom valente
que desafia, esbraveja e arrasa
a paciência e o humor de toda gente. Ninguém briga, afinal. É só arrelia.
Há uma turma do deixa-disso atenta,
que acaba de mansinho a valentia. Depois se vota. Tudo entra nos trilhos.
Vai se votando no levanta e senta.
No vai e vem solene dos fundilhos. Um outro soneto satírico do Marquês das Laranjeiras foi inspirado numa intervenção do então deputado Adauto Lúcio Cardoso ao dar um voto favorável a um projeto, recomendando que fosse melhorada sua redação final: Diz o Adauto: “Eu espero que o Senado
melhore a redação deste projeto.”
Ele quer português do bom, correto,
flor do jardim do Lácio decantado. Tudo isso para mim parece errado:
O que importa, de fato, no projeto,
direto ou não, é apenas o objeto,
e o tal sujeito oculto ou disfarçado. Que importa na política a gramática,
A prosódia, a sintaxe, a sistemática,
todos esses troços complicados? Que importa, amigo, deixa esses defeitos.
Valem mais em política os sujeitos
E valem muito pouco os predicados. Este era o Nonato Marques, inteligente, bem humorado e que nunca deixou de dar oportunidades tanto a jovens como a poetas já estabelecidos como também escrevia sobre os mesmos. Escreveu inúmeros prefácios, orelhas e artigos enaltecendo obras. Eu mesmo tive a felicidade de ser resenhado por ele, que com estilo elegante escreveu sobre dois de meus livros de poemas, “Asas Para Amar” e “Estandarte”. Certa feita, como fui fazer o lançamento destas obras em Queimadas, sua terra natal, ele fez questão de ir para lá para me receber, me saudar e me apresentar aos seus conterrâneos. Nonato foi um homem marcante e teve uma vida pública marcante. Que o diga sua esposa, dona Maria Angélica Marques, seus filhos, netos e bisnetos. Que o diga seus amigos, pois inimigos não os teve. O escritor, político, engenheiro agrônomo e Poeta, com letra maiúscula, Antonio Nonato Marques, autor de “A Poesia era uma festa” (1996) era também um memorialista de mão cheia. Em resumo, Antonio Nonato Marques nasceu na antiga Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas, atual cidade de Queimadas – Bahia, no dia 27 de abril de 1910 e morreu no dia 5 de abril de 2006, ou sejam 22 dias antes de completar 96 anos de idade. Fez seu curso elementar em sua cidade natal e o curso complementar na cidade de Alagoinhas. Em 1924 começou a fazer exames preparatórios no antigo Ginásio da Bahia. Em 1934 prestou exame vestibular para a Escola Agrícola da Bahia, onde se diplomou tendo sido escolhido como orador da turma de Engenheiros Agrônomos de 1937. Como agrônomo ocupou muitos cargos inclusive o de Secretário da Agricultura e Comércio da Bahia e Presidente do Instituto Baiano do Fumo entre outros. Foi deputado estadual pela “coligação baiana” (PSD/PTB) eleito em 1950 e deputado federal em 1954 pelo PSD (Partido Social Democrático) tendo se reelegido para mais dois mandatos na Câmara Federal, em 1961 e 1964. Permaneceu na Câmara Federal até 1967, quando se afastou definitivamente da política. Depois passou a se dedicar a funções ligadas à sua profissão de agrônomo. Como escritor e poeta colaborou em diversos jornais e revistas do estado e do País, com artigos técnicos e literários. As suas produções na imprensa diária ou periódica dariam para formar livros sobre assuntos diversos. Durante oito anos consecutivos foi responsável pela seção de agricultura e pecuária do jornal A Tarde, tendo editado boletins técnicos e informativos das entidades autárquicas, fundações e associativas a que serviu. Como jornalista desempenhou ainda as seguintes funções, em 1939, “Chefe do Serviço de Publicidade do Instituto Bahiano do Fumo, tendo sido na oportunidade também o redator-chefe do Boletim Informativo daquela autarquia e diretor da revista “Bahia Rural”. Em 1941 com a criação do departamento de Assistência ao Cooperativismo foi designado como responsável da Seção de Propaganda e Divulgação, tendo sob sua responsabilidade a revista “COOP” que ali era editada. Posteriormente, em 1942 assumiu a diretoria do Departamento de Assistência ao Cooperativismo. Em 1945 foi nomeado pela primeira vez Secretário da Agricultura, e logo em seguida Diretor da Escola de Agronomia, em Cruz das Almas. Foi ainda Inspetor Geral do Transito (1947), Presidente do Instituto Baiano do Fumo (1941 a 1951); Presidente da Comissão Estadual de Preço (1951 a 1952), Eleito deputado estadual em 1950 foi nomeado Secretário da Agricultura em 1951. Além destas funções, ele exerceu várias outras, como também integrou várias comissões e conselhos além de ter sido presidente do Conselho Administrativo da Caixa Econômica Federal. Na área acadêmica foi diretor da Escola de Agronomia de Cruz das Almas e fundador da Faculdade de Medicina Veterinária da UFBA. Em sua homenagem, a EBDA – Empresa Bahiana de Desenvolvimento Agropecuário, mantém, aqui em Salvador, no bairro da Ondina, um herbário com seu nome e que foi fundado em 1952 com um acervo de 13 mil espécies. Nonato Marques integrou ainda as seguintes entidades: Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia, Sindicato dos Engenheiros da Bahia, Associação Baiana de Imprensa (ABI), Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Foi também membro fundador da Academia de Artes e Letras do Salvador – ALAS, da qual nunca deixou de manifestar orgulho por integrá-la. Esta ALAS também se sente honrada, permito-me a ousadia de falar em nome de todos os seus membros, em ter tido entre seus fundadores um dos mais brilhantes poetas baianos do século XX: Antonio Nonato Marques, o Marquês das Laranjeiras, O poeta da Baixinha, hoje um Nonato Encantado. A atividade literária, sobretudo na área da criação poética, iniciada na adolescência, o acompanhou por toda a vida. Em poesia publicou: “Poemas de meu enlevo”, “Poemas do Céu e da Terra”, “Tempo de Poesia”, “A poesia era uma festa”, “Os dois últimos poetas da Baixinha”, em parceria com o também poeta Bráulio de Abreu. Na prosa, destacam-se: “O Lado verde da vida”, “Dom Pedro I e seus amores”, “Pinga-Fogo”, “Santo Antonio das Queimadas” e “Uma Porta para Canudos”. Escreveu duas peças para teatro: “A Procura de Marido” e “O Gigante também tem asas”, que foram encenadas em algumas cidades baianas. Deixou inédito o livro “Crônicas Rurais” que a ALAS poderia tomar a iniciativa, fica registrado aqui a proposta, de tentar publicá-lo ou encontrar um patrocínio neste sentido. Outras produções literárias de Nonato Marques foram também publicadas em revistas e jornais do sul do país. E a respeito desses trabalhos existe uma grande fortuna crítica. Na área de estudos técnicos vinculados à agronomia destacam-se títulos como: “Geografia do Fumo na Bahia”, “Iniciação Cooperativista” , “Pessoas, Plantas e Animais” e monografias técnicas como “O Sisal na Bahia” e “O Umbuzeiro”. Falar sobre Nonato Marque é falar sobre uma parte da história da vida literária da Bahia e sendo assim, não podemos deixar de destacar o seu papel como membro do Grupo de Poetas da Baixinha. A denominação de Baixinha, era porque o Café Progresso, onde jovens poetas-boêmios se encontravam, estava situado próximo a um larguinho, de onde despontam as ladeiras do Carmo, do Passo e do Pelourinho, e que liga a Baixa dos Sapateiros ao Taboão. O Grupo da Baixinha, que tinha como mecenas Raimundo Pena Forte, era formado por rapazes de 18 a 21 anos de idade, boêmios talentosos que passavam todo o tempo improvisando e escrevendo literatura em cafés e bares da cidade. O grupo da Baixinha freqüentava o Café Progresso até o horário de saída do último bonde. Fizeram parte do Grupo da Baixinha: Alves Ribeiro, Aníbal Rocha, Amphilophio Britto, Ângelo Brandão Donatti, Bráulio de Abreu, Clodoaldo Milto, Dagmar Pinto, De Souza Aguiar, Epaminondas Pontes, Elpídio Bastos, Egberto de Campos Ribeiro, Honorato Gomes, Leite Filho, Nonato Marques, Otto Bittencourt Sobrinho, Pereira Reis Júnior, Pinheiro Viegas, Raimundo Penna Forte, Samuel de Brito Filho, Wasny Casaes e Zaluar de Carvalho. O Grupo da Baixinha era conservador e seus integrantes cultivavam o verso rigorosamente metrificado, no melhor estilo parnasiano. O Grupo foi responsável pelo lançamento da revista SAMBA que marcou época e presença na história da vida literária baiana dos anos vinte do século passado. Graças ao Conselho de Cultura do Estado da Bahia recentemente saiu publicada uma edição facsimilada da mesma. A revista mensal Samba foi a primeira de feição modernista a ser editada na Bahia, sendo, portanto, precursora da revista Arco & Flexa, liderada pelo poeta e crítico Carlos Chiacchio. Segundo depoimento de Nonato Marques, no livro “A poesia era uma festa”, “Samba era uma revista modesta composta em papel jornal. Foram publicados apenas quatro números. A revista teve vida efêmera como os cometas, porém, mesmo assim, deixou um traço luminoso na história da vida literária”. Nonato Marques registrou, no livro “A poesia era uma festa”, publicado em 1994, o seu tempo poético de vida com as seguintes e precisas palavras: “No meu tempo a poesia fazia parte do cotidiano da vida da província. Vale dizer: habitava a idade dos homens e como eles conviviam no seu dia-a-dia, através da leitura de revistas e jornais que lhe abriam espaços generosos. A poesia se misturava com as pessoas, alegrando-as, divertindo-as, animando-lhes as festas cívicas e particulares, conquistando-as de tal maneira que era muito raro encontrar alguém, ainda que medianamente instruído que não soubesse de cor alguns versos de sua predileção”. Nonato nos deixou um legado como obras. Deixou também viúva, dona Maria Angélica Marques, sete filhos, 13 netos e quatros bisnestos, a quem estendo esta homenagem com a palavra de muito obrigado, por ter ajudado na edificação da obra deste poeta encantado. Para finalizar vou recitar alguns poema do POETA NONATO MARQUES: DESPEDIDA Foi bem ali naquela ponte estreita
- em tudo a um cromo antigo parecida –
que ela tristonha e um tanto contrafeita
levou-me seu adeus de despedida. Entre meus braços tensos envolvida,
ela por entre lágrimas desfeita
maldizia a desdita da partida
que ia forçada a viver insatisfeita. Era a separação. Era a distância.
Era a ausência cruel – próxima e expressa –
que violentava um grande amor de infância.
Pelo meu rosto junto a minha fronte
as lágrimas corriam mais depressa
do que a água que corria sob a ponte...
até receio quando alguém nos vê
beijar suas mãositas de musmê
ante seus olhos grandes de menina.
Ela parece assim (não sei porquê)
tendo uma boca rubra e pequenina,
uma boneca original da China
que ri e dança namora e lê.
Tenho receio de tocar de leve
aquela alvinha como a neve,
aquela carne tentadora e louca.
Se beijo-a muito, tenho muita pena
porque ela é tão franzina e tão pequena
que o meu beijo mau cabe em sua boca. Trecho de um outro poema referindo-se à época em que a poesia era uma festa:
“...os rapazes boêmios daqueles
tempos perambulavam a declamar
pelas ruas tortuosas e
enladeiradas de Salvador,
até altas horas da noite,
dentro da qual sibilava ,
a intervalos, o apito do guarda
noturno e se ouvia o grito
dolente e comprido
da negra do acarajé.” Salve Nonato Marques, o Marquês das Laranjeiras, o mais novo Poeta Encantado da Bahia! Muito obrigado. Outono de 2006, Salvador, 12/06/2006.